Em meio àquela vastidão lívida havia um ponto de cor, um menino. Perdido e cercado por alvas árvores , ele andava com suas pesadas botas pela neve, deixava gravado no chão a marca de seus pés, marcas que em pouco tempo seriam cobertas. Havia muito que ele lá caminhava, mas mesmo fatigado continuava lentamente em direção a mais branco enquanto um vento gélido cruzava o seu caminho e o cercava por todos os lados.
Seus pés doíam e suas botas estavam encharcadas, sentou-se para tirá-las por alguns instantes e descansar, pisando pela primeira vez com seu pé nu na neve. Ela era fria e queimava, mas ao mesmo tempo o contato com o branco trazia uma estranha sensação, inexplicável para sua mente, que falava diretamente com algo em sua essência. O rapaz continuou a sua caminhada descalço. Cansado, olhava para baixo enquanto andava, observando as novas marcas que seus pés deixavam na neve. Suas, não mais as das botas.
Era como se as árvores mortas e brancas soprassem frio sobre ele, que agarrando seu casaco continuava seu caminho. Enquanto olhava para seus pés, vislumbrou o que parecia ser cor em algum lugar. Foi então que ao levantar seu rosto viu uma cerejeira florescente à frente, uma de suas pétalas, trazida por uma lufada de vento, pousou sobre seu pé e um calafrio percorreu seu corpo. Com energias renovadas ele começou a caminhar em direção àquela aparição, deixando cair no branco aquele pedaço de cor que havia pousado sobre ele. No meio do caminho surgiu um vento carregado de neve, que não lhe permitia ver mais nada. Ele continuou a andar, a esmo e com grande dificuldade, tentando em vão chegar à fonte de cor que havia visto.
Passou-se muito tempo enquanto ele andava em busca daquelas belas cores, agora um homem, ele já estava com uma barba branca coberta de neve. Suas forças deixavam-no, seu casaco molhado e cheio de neve havia se tornado um fardo pesado demais para seus ombros cansados. Ele o largou sobre a neve e continuou seu caminho nu. O frio atingia sua alma frustrada por não encontrar aquilo que havia visto a tantos anos, mas que ainda buscava. Seu andar se tornara pesado e vagaroso, todo aquele branco enevoava suas lembranças e ele esquecia de como era aquela cor que o havia fascinado. Ele havia se tornado um senhor branco de barba branca que caminhava pelo branco em busca de uma memória esquecida.
Agora ele já não sentia mais frio, o vento havia cessado e neve caia suavemente sobre ele. Parou e olhou para trás, as marcas de seus pés haviam se tornado uma só coisa com a neve que o cercava. Ele estava exausto. Pela primeira vez permitiu-se soltar seu corpo, caindo de costas sobre a neve. Ficou ali parado olhando para os flocos que caiam daquele céu branco, lívido. Fechou seus olhos para buscar em sua memória pelo breve momento em que havia visto algo. Nada...não conseguia saber muito bem o que era, só lembrava que era lindo. Tudo que ele via em sua mente eram neve e árvores, uma paisagem branca.
...
No meio da neve e das árvores estava deitado um homem branco, com sua longa barba branca e nada mais. Trazida por uma lufada de vento uma única pétala de cerejeira enleou-se na barba do homem. O vento trouxe também mais neve, que aos poucos cobria seu corpo. Seus pés. Seu torso. Sua cabeça. Tudo que restava eram neve e árvores, naquela paisagem branca.