terça-feira, 14 de agosto de 2012

O Relógio de Dorfberg


Era outono na pequena cidade alemã de Dorfberg quando o Relógio deu sua primeira badalada, marcando oficialmente sua inauguração. De cima de sua torre era possível ver toda a cidade reunida na praça, as casas que os cercavam, e, mais além, suas fazendas e montanhas. A calma rotina deste pequeno-grande mundo havia sido abandonada, e lá, em seu centro, as pessoas comemoravam o grande acontecimento, a chegada do novo membro à comunidade.

A festa começou oficialmente com a badalada do meio-dia, todos os homens e mulheres, de todas as idades, haviam se reunido para a grande festa. Enormes mesas foram montadas na praça para que toda a cidade pudesse banquetear junta, como era seu costume em datas importantes. Todos ajudavam, comiam, bebiam, conversavam e se divertiam. Do topo do Relógio era possível ouvir o burburinho de felicidade lá em baixo enquanto as nuvens passavam e o céu azul, depois alaranjado, finalmente ficava escuro, junto com mais uma badalada do Relógio da cidade que anunciava o final do dia e das comemorações.

O próximo dia começou com o Relógio anunciando a chegada do sol, a cidade toda acorda com o cantar do arauto dos astros, as crianças vão à escola e os adultos começam seus trabalhos. Quando o sol já havia percorrido metade de sua jornada diária, o Relógio avisa Dorfberg, que pausa para comer e descansar antes de retomar atividade. O dia continua, o vento vem e vai, as águas do rio na montanha continuam seu incansável caminho, e como no dia da festa o Relógio anuncia o escurecer, e a cidade, juntamente com o sol, volta às suas casas para descansar.

Os dias assim se repetiam, tanto cidade quanto Relógio felizes em sua rotina. De estação em estação um relojoeiro vinha e entrava na torre do Relógio, passava alguns dias lá, e então voltava pela mesma estrada que havia vindo. Muitas e muitas estações se passaram desta forma, sem que houvesse grandes mudanças naquele pequeno-grande mundo. Até o momento em que veio o Primeiro Longo Inverno, muitos homens deixavam a cidade e não voltavam mais, mulheres e crianças choravam ao dar adeus para eles, os que voltavam carregavam pesados fardos com suas cabeças, e alguns tinham as cicatrizes destes fardos cravadas em seus corpos sofridos. Durante este Longo Inverno os relojoeiros pararam de vir visitar o Relógio. Do alto da sua torre era possível ver a melancolia e o desespero como um véu cobrindo Dorfberg, e eventualmente o Relógio também cedeu sob a atmosfera opressora, seu canto começou a sair estranho, como lamúrias pela cidade que amava, até que ele não aguentou mais e silenciou-se, entrando em um longo torpor.

Após várias estações o Longo Inverno finalmente passou, e a cidade começou o seu processo de recuperação. Aos poucos as fazendas se recuperavam, as pessoas sorriam novamente e era possível ouvir piadas e risadas, foi então que a cidade voltou a se preocupar com o seu antigo Relógio. Um dia sem aviso nenhum, ele bradou, não sabia o que nem por que. A cidade toda se surpreendeu com aquele som repentino, que há tanto tempo não era ouvido. No momento desta badalada era possível ver ao longe, da torre do Relógio, um estranho vindo pela estrada. Ele vinha assobiando enquanto andava, usava um chapéu coco e carregava uma grande mala, Zeit era seu nome, ele era o novo relojoeiro, e viera a pedido da cidade para cuidar do antigo Relógio.

Assim que chegou a Dorfberg, Zeit trancou-se na torre do Relógio. Badaladas vinham em horas e de formas inesperadas: longas, curtas, muitas, poucas, com os mais variados sons; até que Zeit finalmente deixou a torre, e anunciou que o Relógio estava restaurado. No dia seguinte o cantar do relógio acompanhou as atividades da cidade, desde o amanhecer até o escurecer, mas cada badalada era diferente, era como se o Relógio expressasse sua própria voz no seu cantar ritmado. Algumas vezes, em dias de chuva pareciam espirros, em dias de sol pareciam com riso, até bocejos quando tudo estava tranquilo. Quando perguntavam para Zeit por que o Relógio fazia tantos sons diferentes, ele sorria e lhes explicava os sentimentos do Relógio. Diferente de seus antecessores, Zeit ficou e abriu uma loja na cidade, onde construía relógios dos mais diferentes tipos. Ele construía relógios-água, relógios-sol, relógios-lua, relógios-estrela, relógios-rocha, relógios-árvore, relógios-terra, e vários outros tipos de relógios, até mesmo os relógios-relógio, quando alguém lhe pedia. Mas nenhum deles cantava como o grande Relógio da cidade.

Estações se passaram nesta aparente calma, mas haviam aqueles que não gostavam de todos esses sons e relógios esquisitos, e muito menos daquele estranho relojoeiro que havia trazido isto tudo à cidade deles. Aos poucos este Grupo começou a crescer, eles convenciam os outros de que Dorfberg precisava de ordem, e de que aqueles relógios eram o oposto disso, infestando sua cidade de uma cacofonia insuportável. Com isso as pessoas foram parando de comprar os relógios que Zeit fazia, os únicos que ainda visitavam sua loja eram as crianças,  e mesmo estas começaram a ser proibidas por seus pais de visitá-lo.

A cidade começou a ficar destoante, os relógios mantinham seu cantar rotineiro, mas Dorfberg estava mudando seus hábitos. Do alto da torre do Relógio era possível ver algumas cores dominando a cidade conforme o Grupo crescia, marrom, vermelho, branco e preto, as outras se abrigaram nos arredores, o verde dos campos, o azul dos riachos, e todas as outras cores que se refugiavam junto das flores. O cantar do Relógio entristeceu-se, ele parecia estar com saudade.

Desta forma chegou o dia em que o Grupo foi falar com Zeit, eles queriam que ele parasse de construir todos aqueles relógios estranhos e passasse a construir só relógios-relógio, eles não queriam mais que os relógios fossem arautos dos astros, mas sim contadores das horas, cronometrando cada segundo em silêncio. Zeit recusou-se  e passou a ser visto muito pouco, durante cinco dias ficou trancado em sua oficina, saindo só para visitar a torre do Relógio, o único amigo que lhe restava. No sexto dia ele não foi visto em parte alguma, e no sétimo um novo relojoeiro havia chegado à cidade e se instalado em sua antiga oficina a chamado do Grupo. Ele modificou os relógios antigos e construiu relógios novos para ordenar o tempo, o único relógio que resistiu a suas tentativas foi o Relógio da cidade, o relojoeiro não conseguia entender seu complexo mecanismo e por mais que tentasse não conseguia mudá-lo.

O cantar do Relógio era cada vez mais melancólico e errante, o Grupo já não o aguentava mais, e ordenou que o relojoeiro  o destruísse e construísse um relógio novo e magnífico. Em seus últimos momentos o velho Relógio badalou badaladas como gritos de tristeza, que cessaram quando ele se reuniu a seu amigo Zeit.