sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Um Dia no Parque (que talvez nunca aconteça)


Em um futuro nada distante, porém improvável... podemos observar uma criança rindo como só é possível nessa tenra idade cheia de inocência. Ela deve ter por volta de cinco anos e se encontra de braços abertos e olhos fechados, sentindo o vento acariciar-lhe o rosto enquanto seu pai corre com ela sobre os ombros pelas veredas do parque. Um pouco preocupada e tentando esconder o sorriso no canto do rosto, a mãe segue os dois, como se, de alguma forma, seu vigiar carinhoso fosse capaz de impedir que qualquer mal lhos atingisse.


Essa é a primeira vez que a criança vai ao parque com seus novos pais. Novos pois eles lha adotaram em um improvável futuro ainda menos distante... ou seria mais apropriado relatar que em um passado muito próximo, do ponto de vista temporal da imagem observada? Seja como for, e em nome da claridade, deixemos de lado essas elucubrações temporais por um instante, e digamos que a criança estava com seus novos pais há apenas três semanas. Três semanas, tão pouco tempo, mas que contém em si as sementes para grandes mudanças na vida dos três familiares.

O pai por muito tempo quisera ter filhos, já a mãe não. Devido a essa discordância de opiniões, a questão foi deixada de lado durante anos, não saberíamos dizer exatamente quantos, é possível que nem eles saibam... Foi apenas após seu casamento que a questão voltou a surgir, inicialmente como uma inquietação por parte do pai, que, aos poucos, foi transmitindo-a a sua então cônjuge, quiçá como a mais bela das doenças. Assim chegou um dia em que, acometidos por essa moléstia paternal, após muito ponderar, esposo e esposa decidiram por adotar uma criança para criarem como sua. A decisão não fora feita sem preocupações, criar uma criança, adotá-la, era algo que continha em si muitas incertezas. E se eles não se adaptassem a vida como pais? E se a criança nunca se adaptasse a eles? E se... eram tantas incertezas, mas havia uma certeza maior do que todas elas, a criança seria filha deles, e eles agiriam de acordo.

A criança, por sua vez, era incapaz de lembrar se algum dia havia ido a um parque. Com seus cinco anos, ela já começara a adentrar aquela idade em que nossas memórias mais antigas começam a se tornar difusas. Se formos sinceros, nas três semanas em que estivera com seus novos pais ela não havia se preocupado muito se um dia houvera ido a um parque ou não, nem mesmo quando a sugestão lhe foi feita por seus novos pais. Em sua mente de criança ainda conflitavam duas grandes linhas de pensamento, a de que seus novos pais não eram seus 'verdadeiros' pais, mas também a de que seus novos pais se mostravam muito bons para com ela. Dentro daquele pequeno cérebro, essas duas grandes linhas rodopiavam em uma espiral, e sua síntese era uma grande desconfiança. Afinal de contas, seus antigos pais haviam sido bons para ela também - ou assim ela imaginava, pois, embora não tivesse muitas memórias deles, em sua mente, já influenciada por conceitos humanos primordiais e arquetípicos, essa é uma característica inerente ao 'ser pai' - e ainda assim a haviam abandonado, fossem quais fossem as circunstâncias que acarretaram o fato.

Voltemos agora a nos debruçar sobre o presente daquele improvável futuro nada distante em que começamos nosso exercício de observação, um pai correndo com seu filho sobre os ombros, enquanto é acompanhado pela mãe... Os braços abertos e olhos cerrados, o correr feliz e despreocupado, o olhar de cândido carinho e inquietação. Uma cena de grande significado para os três nela envolvidos, embora nada signifique para os muitos outros que dividem o parque com nossos observados. Esse é o momento, ou foi, ou (nunca) será, dependendo do ponto no tempo do qual se observa, em que os três tornaram sua complexa relação algo concreto e perene, embora efêmero como tudo que é próprio do humano. Nesse momento pais e criança sabiam em seu âmago que algo novo se iniciava, o ato de entrega e confiança da criança, reforçado pelo cuidado e amor dos pais, havia servido para apaziguar a síntese de desconfiança do mais novo e os medos e incertezas dos mais velhos. E, embora o dia estivesse nublado, com os muitos tons de cinza e azul que tanto encantavam o pai, os três, naquele momento, presos ao presente, seriam incapazes de pensar em um dia mais luminoso, embora eles provavelmente já lhos houvessem vivido e viessem a viver ainda outros.

A tarde passa para os três com o som de muitas risadas, com palavras tenras e muitos sorrisos e um renovado sentimento de confiança em tudo aquilo. Todas as decisões que levaram até lá, todas as pessoas envolvidas, todos os bons sentimentos, tudo o que vivenciavam. É nessa cena observada que a família verdadeiramente se formou com seus singelos três elos. E mesmo que no horizonte nuvens de chuva se avolumem, a família está prestes a voltar para o conforto de sua morada. Viesse uma tempestade ou não, eles agora sabiam aquilo que seus cérebros já vinham lhes dizendo e construindo há três semanas, eles poderiam contar uns com os outros...

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Embora ao julgarmos a cena observada possamos notar uma beleza ímpar, mesmo que mundana, ou, quiçá até, especialmente por isso, ao voltar nosso olhar ao presente em que nos encontramos, pode nos parecer que sua realizabilidade seja improvável. A criança talvez nem exista ainda, tanto como indivíduo quanto como símbolo presente na mente dos pais.  O casal, por sua vez, após muitos anos juntos, se separou devido às variadas vicissitudes da vida. No momento nos é impossível emitir uma opinião sobre as chances (ou falta delas) de que um dia eles voltem a fundir suas vidas em uma só.

Poderíamos imaginar, fossemos esse tipo de observadores temporais, muitos outros futuros para os três (ou no presente ainda são dois?), mas não os somos. Portanto, encerremos aqui nosso exercício de observação.